quarta-feira, 14 de março de 2012

Um pouco mais de poesia...

Fanatismo 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
 Meus olhos andam cegos de te ver!
 Não és sequer razão de meu viver,
 Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
 Passo no mundo, meu Amor, a ler
 No misterioso livro do teu ser
 A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
 Quando me dizem isto, toda a graça
 Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
 “Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
 Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade

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14 de março- Dia Nacional da Poesia.

Você sabia que existe um dia específico para homenagear a poesia? O dia 14 de março foi escolhido para reverenciar o nascimento do poeta Antonio Frederico de Castro Alves (1847-1871), conhecido como o "poeta dos escravos".




A canção do africano
                               Castro Alves

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...


De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!


"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!


"0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!


"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...


"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".


O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!


............................


O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.


E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

Poema publicado no livro "O Navio Negreiro" em 1869.